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Como monetizar o seu hobby não significa ter satisfação no trabalho (ou como se autoconhecer é melhor jeito de encontrar um trabalho massa)

maio 7, 2018

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Em menos de três anos, nascia o que viria a ser um fenômeno: as feiras de pequenos produtores (ainda bem.) A cada ano, o número desses eventos só aumenta. Com ela, veio também o aumento dos pequenos produtores – e esse fenômeno me chamou muito a atenção pois além de eu ser uma pequena empreendedora, também adoro pesquisar sobre pessoas (e entender fenômenos.)

A minha maior curiosidade sobre esses acontecimentos era de que se esse aumento de pessoas trabalhando com processos manuais não estava ligado à vontade das pessoas trabalharem com o que amam. Afinal, todo mundo fala que para ser feliz é preciso trabalhar com o que se ama, não é mesmo?

Perguntando para os meus leitores através do meu instagram descobri que, como eu suspeitava, as pessoas estão cada vez mais monetizando seus passatempos em busca de uma maior satisfação no trabalho.

Ainda com uma pulguinha atrás da orelha, me surgiu uma nova pergunta: mas essas pessoas tiveram essa tal satisfação no trabalho? Pedi novamente ajuda no meu instagram e eis que achei quatro histórias bem legais sobre assunto. Vamos lá?

Luiza : transformou seu passatempo em trabalho full time e está dando certo.

Luiza era fotógrafa quando começou a fazer macramê nas horas vagas. Ela, anteriormente, tinha transformado a fotografia, que era seu hobby, em trabalho mas não estava mais feliz com essa profissão porque tinha que fazer trabalhos que coincidisse com a expectativa do cliente – que nem sempre seguia o que ela queria fazer. A visão do cliente influenciava muito mais no resultado final do seu trampo que sua vontade e isso a deixava frustrada.

Em busca novamente em fazer o que amava, foi trabalhar com um outro passatempo: o macramé. Só que dessa vez uma forma diferente: não queria ceder às pressões do mercado para adaptar seu trampo a visão do cliente  – mas com consciência de que ela não podia simplesmente negar a existência e expectativa do seu consumidor. Para que isso acontecesse, criou uma marca com sua identidade e deixou bem claro a sua forma de trabalho ao cliente: projetos mais autorais que podiam ser conciliados com o gosto dele.

Hoje, ela sente que é feliz e realizada com sua nova profissão porque sabe que todo trabalho tem a sua parte chata mas que isso não precisa ser a parte mais importante do processo. Para isso, ela sempre tem que se lembrar o porquê dessa escolha: fazer algo com a sua cara e que condiz com sua visão de vida. Quando ela percebe que está fazendo um trabalho que não tem nada a ver com ela, ela dá uma pausa, relembra o porquê fez essa escolha e muda a forma de trabalhar.

Concluindo: entender que existe um mercado a ser seguido e não achar que transformar seu passatempo em trabalho é a solução dos seus problemas já é um ótimo passo. No caso de Luiza, ela resolveu monetizar novamente o que ela gostava de fazer nas horas vagas mas de uma forma diferente: seguindo o que ela acredita e, nesse caso, ela acreditava que era preciso fazer um trabalho com sua assinatura, assim não teria que lidar com o que a tanto desmotivava no trabalho anterior que era seguir a visão de seus clientes.

ANA: está tentando entender essa transição.

Ana trabalhava dando aula de artes para crianças na prefeitura. Durante esse tempo, começou a ilustrar e fotografar. Queria trabalhar com o que gostava e ter várias fontes de renda. Com o passar do tempo, percebeu que gostava muito de desenhar e achou que seria a hora de virar ilustradora full time e ter o desenho como uma renda fixa. Saiu da prefeitura e virou desenhista freelancer.

Neste período de transição, ela passou por alguns perrengues: o que gerava uma grana complementar, agora precisava gerar a renda para pagar as suas contas, o fluxo de trabalho não era o suficiente e isso a deixou confusa. Será que deveria continuar ou deveria procurar um outro emprego?

Apesar da dúvida, hoje ela se sente mais aliviada do que trabalhar na prefeitura. Mesmo ainda entendendo se quer trabalhar com ilustração, ela tem a certeza que quer trabalhar com algo relacionado. E nesse período, tem conversado com quem está no mercado e com quem que está na mesma situação que ela para ver se isso esclarece seus questionamentos.

Concluindo: A transição de hobby/trabalho part time para trabalho full time faz com que você coloque uma responsabilidade maior sobre algo que você ama (afinal, ele tem que que te bancar) e enquanto você vai entendendo o mercado, você pode ficar confusx. É possível, que você pegue raiva do que faz ou que precise de mais tempo para se adaptar. É um caminho meio longo e nem sempre você saberá a resposta de primeira. Mas para entender, é preciso experienciar. E por isso, conversar com pessoas que estão no mercado e passando pela mesma situação que você possa ajudar a clarear  as suas ideias.

JÉSSICA: não gostou de monetizar seu passatempo e decidiu a trabalhar como freelancer na área que atuava anteriormente.

Jéssica era designer, mas cansou da vida em agência porque estava infeliz e achava que o principal motivo era não ter autonomia para fazer trabalhos “com a sua cara”. Pediu demissão e foi morar fora.

Para fazer novas amizades no novo país, fez um curso de jóias, conheceu vários joalheristas e idealizou ter sua própria marca. De volta a São Paulo, sua cidade natal, fez um estúdio em sua casa e começou a vender suas peças autorais pelo instagram. Achou que transformar seu hobby em trabalho faria ela feliz – afinal, era a melhor combinação possível.

Com o público crescendo, quis investir em um espaço maior para que pudesse comprar mais maquinários e receber seus clientes. Alugou um ateliê e para pagar todos os seus gastos, começou a participar de todos os eventos possíveis, além de ter uma loja online. E em 6 meses já conseguia viver com este novo emprego. Sucesso, certo? Sim, mas ela não estava feliz – apesar de gostar de falar para os amigos que era uma empreendedora de sucesso.

Para dar conta das feiras e de seu e-commerce, ela tinha que fazer um estoque insano, trabalhava muito e não tinha tempo para sua vida social. Ao mesmo tempo que ela se sentia orgulhosa por ter realizado seu sonho, ela estava muito cansada e, por dentro, muito ansiosa. Resolveu fazer terapia.

Durante as sessões, entendeu que não queria trabalhar mais dessa forma e antes que odiasse pra sempre o mundo das jóias, deu um passo atrás. Saiu do ateliê, voltou a ter seu ateliê em casa e fazer uma produção menor – conciliando com freelancers de design.

Nessa nova fase, conseguiu ter mais tempo para si e para a vida social e hoje, se sente mais tranquila porque tentou a vida de joalherista que tanto idealizada mas percebeu que na prática não queria viver uma vida de empreendedora.

Concluindo: Em São Paulo, temos uma cultura de que você é o que você faz. Aqui, geralmente depois de perguntarmos o nome de alguém que acabamos de conhecer, perguntamos qual o seu trabalho. Resumindo, o trabalho basicamente define quem somos: as pessoas com que nos relacionamos, o nosso estilo e os lugares que frequentamos etc. E isso é bem ruim porque achamos que o trabalho define quem somos.

A Jéssica realmente se encantou com jóias, mas havia se encantado ainda mais com a ideia de ser dona da sua própria marca. Testar na prática a profissão que almejava fez com que ela experienciasse essa vida e a desmistificasse. Entendeu que um emprego não a definia: não ser autoral como designer não significava que ela não era uma pessoa criativa e que não poderia fazer trabalhos com sua identidade em outras coisas sem necessariamente monetizá-las. Não ganhar dinheiro com isso não deslegitimava a sua criatividade.  

GABRIELA: Em vez de trabalhar com o que gostava de fazer, foi trabalhar com o motivo pelo qual ela gostava do seu hobby.

Gabriela sempre gostou de artes performativas: dança, teatro, música, ópera, entre outros. Acidentalmente, acabou estagiando no instituto Baccarelli durante a faculdade.

Quando se está dentro de um ambiente em que é possível vivenciar diariamente o seu hobby, é comum que as pessoas fiquem propensas a estudar mais sobre o assunto e virem o próprio passatempo, no caso da Gabriela, virar musicista. Mas não foi o caso.

Gabriela resolveu trabalhar com o seu hobby de uma outra maneira: ajudando a organizar as apresentações do instituto, desenvolvendo projetos, criando eventos que explicassem melhor sobre música clássica etc. Hoje, gabi é assessora de programação artística na Filarmônica de Minas Gerais e trabalha para que cada vez mais as pessoas conheçam a música clássica para que elas possam sentir que essa música proporciona a ela. Ela se diz uma pessoa muito feliz no trabalho.

Concluindo: Não é preciso trabalhar literalmente com o que te motivava, é possível trabalhar com o motivo pelo qual você gosta do seu lazer. Mas pra isso, é preciso entender qual é a razão principal (a raíz) para gostar do seu hobby.

CONCLUSÃO GERAL: Em busca da felicidade no trabalho e tentando vivenciar o “trabalhar com o que se ama”, as pessoas estão literalmente transformando seus passatempos em ofício. Trabalhar com o seu hobby pode ser bem massa mas pode se tornar um pesadelo – depende muito da relação entre a pessoa e novo desafio.

Pra isso, é preciso desmistificar essa tal felicidade plena de trabalhar com o que se ama. Afinal, nem sempre o trabalho vai ser legal, nem sempre o processo vai ser tranquilo. Não podemos nos esquecer também que quando trabalhamos com algo que amamos, colocamos uma carga emocional e uma expectativa muito grande sobre o trabalho. 

 

Por isso, antes de monetizar seu hobby, tente entender a raiz desse amor. Tente entender qual o motivo principal pelo qual você gosta de tal atividade. Exemplificando, se você ama cinema, pode ser que queira ser um cineasta ou um roteirista, mas talvez o que te chama atenção nos filmes não é a parte técnica e, sim, a parte emocional: as histórias, as psiques de cada personagem e, no final, o trabalho dos seus sonhos é ser psicólogo – ouvir mais outras histórias todos os dias.

Para entender o que você realmente gosta é se autoconhecer. De novo: vá a terapia, fale, exponha seus sentimentos e tente entender o que você (somente você) quer fazer.

Se você chegar a conclusão que quer transformar seu hobby em ofício, pergunte às pessoas que já trabalham na área como é o mercado e o dia-dia dessa profissão. Veja se ela se alinha com sua visão de vida. Faça um test-drive antes, trabalhe em um estágio ou em meio período. Desmistifique! Se você se sentir seguro, se jogue. Se achar que não se encaixa, dê um passo atrás, recomece e não se esqueça jamais de quem um trabalho não te define. A nossa vida é cheia de outras vidas, melhor tentar do que ficar parado no mesmo lugar – e reclamando.

E você já teve alguma dessas experiências? Conta pra mim aqui embaixo.

 

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3 Comentários leave one →
  1. maio 7, 2018 8:05 pm

    Oi, Renata. Adorei o seu post!
    O meu sonho é ganhar dinheiro com o meu hobby, mas nem sempre trabalhar com o que gosta traz felicidade e satisfação plena, né. Sem contar o retorno financeiro haha.
    Muito importante fazer essa reflexão antes de largar o emprego fixo ou mudar de área.
    Adorei mesmo, parabéns! Vou começar a te seguir! Abraço!

    • Renata Miwa permalink*
      maio 7, 2018 8:36 pm

      Oi, Tarsi. Sim, Que bom que gostou do post 🙂 Obrigada pelas palavras. E, sim, acho que qualquer escolha que fizermos é preciso levar em conta quem somos. E lembrar sempre que trabalho sempre vai ter a parte legal e a parte chata dele. Se soubermos encontrar um equilibrio entre eles, fica perfeito – mas isso não necessariamente precisa ser através do seu hobby. Mas isso só você e sua experiência dirá 🙂 Nos vemos em outros posts. Beijinhos.

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