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Como resolvi ser uma artista possível ou como produzir menos me fez produzir melhor

junho 5, 2017

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Há umas semanas, fiz um post no meu Instagram em que eu desabafava sobre tempo, dedicação, vontades e escolhas. Surpreendentemente foi o post mais curtido e comentado da minha vida. Foi muito bom ver que muitas pessoas me entendiam e me apoiavam.

Para contexto, o texto era esse:

“Sou uma pessoa ansiosa. Quem me conhece sabe que não consigo ficar muito parada. Faço mil coisas por dia. Meus amigos brincam que minhas 24 horas duram mais do que as 24 horas deles. Mas ser uma mulher multitarefas tem seu custo. Acordar cedo, dormir tarde, ter pouco tempo para as relações, achar que sempre está correndo contra o tempo e pensar que nunca o que você fez no dia foi o suficiente. To do lists infinitas e uma angústia eterna. Essa era a miwa até 2015/2016.

A minha ansiedade é crônica e faz parte de mim, não posso negar, mas a miwa de 2017 resolveu que precisava apertar o pé no freio antes que tivesse um piripaque. Tive que fazer escolhas.

Entender que meu corpo não era uma máquina em que eu poderia fazer login ou logoff me ajudou muito. Parei de virar noites, aprendi a dizer não para alguns trabalhos e aceitei os dias em que estava cansada e sem inspiração. O que mudou não foi só a rotina, mas foi levar a vida mais leve. Em um mundo onde tempo é dinheiro e produção tem que ser insana (você sempre tem que estar criando, atualizando instagram etc), eu acabei esquecendo de mim. Fiquei pensando: estou fazendo isso por mim ou pelos os outros? Resolvi ir mais devagar. Minha produção diminuiu mas entendi que esse é o melhor que posso fazer hoje.

Quando decidi ir mais leve fiquei com medo. Medo de ser esquecida, medo de perder a mão, de perder criatividade, inspiração etc. Mas vendo minhas cerâmicas saindo do forno e o resultado tão lindo, meu coração ficou enorme. Era um trabalho verdadeiro, feito do fundo do meu coração.

Era eu ali. Eu inteira.

A gente faz as coisas tão no automático que às vezes esquece de olhar pra dentro. Por isso, quando der aquela angústia e o medo de estar indo devagar demais, lembre-se: isso é o melhor que você pode fazer hoje. Amanhã é outro dia.”

Quando comecei a ilustrar, desenhar foi uma forma de colocar minhas angústias para fora. Joguei minhas artes para o mundo através das redes sociais. Comecei a receber curtidas e comentários positivos e me sentia confiante. Mas quando o post não era muito curtido, eu começava a duvidar se meu desenho era bom. O que era pra ser algo bom, começou a se transformar em algo muito ruim para mim: comecei a ilustrar pensando no que as pessoas iam achar, como iriam reagir às imagens que eu postasse. O que era pra ser diversão e alívio virou pressão e descontentamento. Além disso, pela internet comecei a ver outras pessoas fazendo trabalhos incríveis e me comparar foi só um passo. O medo de ficar pra trás fez com que eu trabalhasse insanamente para atualizar as redes sociais sempre. Eu estava criando sem pensar em mim e pensando nos outros.

No meio disso, a grana tava ficando pouca e tive que escolher em ter dois turnos de trabalho: aceitei um trabalho fixo e nas horas “vagas”, eu criava no estúdio. Chegava em casa depois do trabalho, cansada mas me forçava a criar. Na maioria das vezes, isso era muito mais um esforço pra eu provar que escolher trabalhar fixo não me impediria de fazer meu trabalho pessoal. Me sentia cansada, frustrada e perdida. Não tinha tempo pra mim, pro ócio e pras minhas relações. Bateu a crise dos 27 (se é que isso existe) e resolvi refletir sobre a minha vida antes que eu sofresse um burn out e explodisse.

Às vezes esquecemos que não somos máquinas, que existe cansaço e jeitos de levar a vida. Eu já não sabia se estava feliz ou infeliz com o meu trabalho e eu precisava entender o porquê. Resolvi me escutar e percebi que era hora de uma pausa, ir com mais calma mas para ir devagar era preciso coragem. Fiquei com medo de ficar pra trás, de estar perdendo tempo e de não produzir na mesma quantidade que outras pessoas das minhas redes sociais. Fiquei com medo de que as pessoas que me seguiam poderiam me esquecer. E, de novo, estava pensando nos outros e não em mim.

Como toda escolha tem uma consequência, trabalhar sem parar estava me custando um preço e essa era uma conta que pra mim não fechava. Olhando para dentro, pensei em mim, percebi que meu tempo era diferente e que produzir menos era o melhor que eu podia fazer nesse momento. O medo ainda bate na porta às vezes. Mas a convicção de que estou sendo eu mesma, me faz uma pessoa melhor e mais criativa. Se hoje esse é o melhor que posso fazer, amanhã é outro dia. Se não dá pra ser uma artista perfeita, resolvi ser uma artista possível.

Por isso, se você se encontra na mesma ou em situação semelhante, olhe para dentro e veja se o que você faz, faz sentido para você. Se respeite, seja você mesmo e acredite nas suas escolhas que tudo vai dar certo.

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4 Comentários leave one →
  1. Felipe Cotrim permalink
    junho 7, 2017 11:50 pm

    Você é talentosa demais, suas ilustrações são incríveis, suas cerâmicas lindas. Se ser uma artista perfeita significa produzir uma porção enorme de trabalho, prefiro a singularidade de uma obra que se sente o coração de uma artista possível. Quantidade nunca vai superar isso.

  2. Débora Freitas permalink
    junho 8, 2017 2:38 am

    Parabéns por ter tido tanta lucidez de parar antes de explodir. Não tive a mesma atitude e me deixei implodir. Mesmo não sendo artista a lógica é a mesma. Muito bom seu texto. Serve como alerta e com certeza vai ajudar muita gente. 😉😻

    • Renata Miwa permalink*
      junho 9, 2017 12:40 am

      sim, sim, por um mundo em que as pessoas se escutam mais ❤

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