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Por que estudar desenho quase me fez desistir de ser ilustradora (ou como é preciso conhecer as regras para desconstruí-las)

novembro 14, 2016

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Em 2011, fiz inscrição em uma escola de desenho, em São Paulo. Durante um ano, acordava às nove horas da manhã aos sábados e ficava três horas debruçada sobre folhas de papel, desenhando sem parar. No fim do curso, eu tinha uma única certeza: nunca seria ilustradora.

Não vou desmerecer a escola. Ela é muito boa e aprendi muito sobre perspectiva, sombra, corpo humano etc. Mas meu professor me fez acreditar que eu não sabia desenhar. 

Era uma escola com um background de desenho de HQ. Para o professor, se eu não desenhasse os personagens no estilo Marvel, estava errado e eu teria que refazer.

Ele nunca me explicou que o desenho poderia ser desconstruído e que tinham inúmeras formas de criá-lo. Durante todo esse tempo, acreditei que jamais conseguiria desenhar. 

Mas, quando recebi o diploma, tive uma conversa com o meu pai que mudou tudo. Ele pegou meu caderno e falou que de fato algumas proporções  não estavam corretas, mas perguntou se desenhar personagens em quadrinhos ou de forma realista era realmente o que eu queria fazer, pois essas regras não serviam para todos. Muitas pessoas criavam seus desenhos de forma estilizada, ou seja, quebrando essas tais regras teóricas sobre proporção do corpo, perspectiva, sombra etc.

Ele acabou me contando como começou a desenhar, como os seus irmãos também desenhavam, e que eles sempre tentaram criar uma identidade para que o desenho fosse a voz deles. Para chegarem a esse resultado, eles experimentaram novas formas de desenhar, seja mudando a perspectiva, seja deixando a imagem menos orgânica e mais geométrica.

Com essas dicas, fui desconstruir o que eu tinha aprendido academicamente. E daí, fui encontrando a minha identidade como ilustradora. Mudar a ideia de que existe certo e errado no desenho é o que eu tento conversar e discutir com as pessoas que se interessam por ilustração. Pra mim, tudo é possível.

Não estou dizendo que as regras e teorias não devem ser seguidas. Acho que devemos ser livres pra criar como quisermos, desde que tenhamos noção de como o desenho funciona. Assim, podemos usar isso ao nosso favor na hora de decidir seguir ou não as regras.

Acho que se não tivessem me doutrinado sobre como o desenho realista seria o único certo naquela época, eu e muitos colegas de classe teríamos tido outra visão sobre o desenho.

Encontrei há pouco tempo uma amiga que estudou comigo nesta escola. Ela saiu do curso seis meses depois de mim justamente porque achava que não sabia desenhar. Hoje ela é também ilustradora (e muito boa).

Quantas pessoas já não desistiram porque o outro disse que estava errado? Quantas pessoas deixaram de fazer algo porque as fizeram acreditar que não eram boas o suficiente?

Por isso, se algum dia alguém disser que o que você fez não está bonito ou não está certo, desconfie. Siga seus instintos e continue com seus projetos. Todo desenho tem sua significação e espaço no mundo 🙂

 

 

 

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One Comment leave one →
  1. giz de sonhos permalink
    novembro 14, 2016 12:30 pm

    Eu queria muito aprender. Entendi com o tempo que é resultado de treino e observação.
    Um dia, quem sabe, eu consiga.

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